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Asas da América: para matar a saudade e cair no passo

Asas da América

Todo ano, o carnaval em Pernambuco chega a bordo de uma velha discussão: porque o frevo cantado não se moderniza e se impõe como o gênero dominante na folia? As respostas são variadas, mas quase todas apontam para problemas correlatos. Um deles é a falta de apoio dos meios de comunicação, sobretudo o rádio e a televisão. Outro, que pode ser causa ou conseqüência, a falta de música, de novos compositores (será?), de renovação. Os festivais de música carnavalesca – está provado – não cumprem sua função, são tardios e não se prestam a divulgação das músicas vencedoras de maneira eficaz e acabam, a bem da verdade, não contribuindo quase nada para revelar algo que faça o ouvinte sair pulando e cantando por aí.

Como quem não tem cão caça com gato, na falta de coisa nova e boa para se ouvir, o jeito é se agarrar com as coletâneas. Uma das melhores e que deve ser presença obrigatória no player do folião é a caixa de CDs da série Asas da América, criada e produzida pelo caruaruense Carlos Fernando e que fez história de 1969 a 1993, nos bons e velhos tempos do vinil. Entre músicas inéditas para a época e clássicos do carnaval, a série incluía no mesmo pacote cantores da terra e nomes consagrados da MPB. Assim foi possível curtir a folia ouvindo Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, As Frenéticas ou Jackson do Pandeiro no mesmo “LP” onde poderiam estar Alceu Valença, Zé Ramalho, Geraldinho Azevedo, Flaviola ou Marco Polo. E todos cantando ótimos frevos assinados por Nelson Ferreira, Capiba, J.Michiles ou pelo próprio Carlos Fernando, um baita artista e compositor.

Carlos Fernando

Nos CD da série, o prezado amigo poderá encontrar pérolas como “Noites Olindenses” (Carlos Fernando), cantada por Caetano Veloso, lançada no álbum de 1989, e a tradicionalíssima e bela “Valores do Passado”, de Edgard Moraes, na intepretação esfuziante das Frenéticas, na época (1979) rainhas absolutas da “discotheque” tupiniquim. Ou duas versões diferentes para “Banho de Cheiro” (Carlos Fernando), uma com Elba Ramalho (1983), que popularizou a canção, e outra, personalíssima, com Alcione (1989). Ambas imperdíveis.

A caixas de CDs traz ainda a versão digital do LP do “Pinto da Madrugada”, dedicado à pirralhada e que tem um timaço de intérpretes locais, como Edilza, Nádia Maia, Mônica Feijó, Lula Queiroga, Marrom Brasileiro (na época cantor do Versão Brasileira, que consta nos créditos) e Marcílio Lisboa, jovem talento que foi embora precocemente em 2006.

“Asas da América” é um luxo que não temos mais. Bem que Carlos Fernando podia reviver o projeto. Mas, comprar a caixa com os CDs e se fartar de ouvi-los, neste e em outros carnavais, já é uma. E uma muito boa.

Adryana BB

Adryana

A pernambucana Adryana BB é a bola da vez. Ano passado lançou um ótimo CD (“Do Barro ao Ouro”). Tem uma carreira consolidada e público cativo no Rio de Janeiro, onde desenvolve, há mais de 10 anos, um trabalho de difusão da música pernambucana, sobretudo frevo, ciranda e maracatu. Já era tempo de o Recife descobrir a menina. E está descobrindo graças ao projeto Pernambatuque, que acontece semanalmente no Pátio de São Pedro. Ao lado de um banda afinada e dona de uma voz como poucas na cena musical da terrinha, a cantora mostra músicas inéditas e autorais, frevos de blocos consagrados, maracatus e cirandas, numa festa para quem gosta de música boa e genuinamente pernambucana. Ela ainda tem recebido convidados, entre eles, Alessandra Leão, Lia de Itamaracá, Abissal, Edilza, As Conchitas e Ricardo Chacon.

Para quem perdeu essas apresentações, a boa notícia: Adryana BB já está escalada para o carnaval do Recife. É pegar a agenda da folia, localizar as suas apresentações e curtir um talento raro.

No vídeo, um pouco do que Adryana BB vai aprontar no carnaval.

BRAVO, MARYA!

Marya

Quem puxa aos seus não degenera, herda. Frasezinha surrada, mas certa como chuva de caju. Querem um exemplo? Marya Bravo, atriz e cantora que começa a despontar como grande promessa. Ela é filha de Zé Rodrix, um dos mais criativos artistas da MPB, falecido em 2009. E é em homenagem a Rodrix, que Marya apresentou, esta semana, “De Pai Para Filha”. Pena que foi um pouco longe do Recife, foi no Rio de Janeiro. Mas, quem sabe esse ótimo show não pinta por aqui?

Eis uma palinha de Marya Bravo, no espetáculo “Beatles num céu com diamantes”, que levou o talento da moça e sua trupe a encantar cariocas e novaiorquinos, ano passado.

*Gilvandro Filho é jornalista e compositor/letrista. Críticas e sugestões para gilmmfilho@gmail.com


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