Religião na era da ciência e da tecnologia

Na década de 90 do Século XX, os evangélicos representavam 15,4% – 26,2 milhões de brasileiros – em uma população de 169 milhões de habitantes. No censo 2010, a população brasileira passou de 190 milhões de habitantes – um crescimento de 21 milhões de pessoas. Ou 12,3% em relação à década anterior. Os evangélicos, agora, são 40 milhões de brasileiros. Representam 21%. São 14 milhões a mais de brasileiros que aceitaram ser evangélicos. No percurso de duas décadas, o número de brasileiros evangélicos triplicou. Em números não-oficiais, ainda, admitem-se que, dos 190 milhões de brasileiros, em 2011, 57 milhões sejam evangélicos. As congregações evangélicas, otimistas, preveem, até 2020 – quando o Brasil terá uma população acima de 220 milhões de habitantes –, que 50% serão evangélicos.

O crescimento da população evangélica coincide com a ascensão dos brasileiros ao mercado de consumo e a um modelo de Estado mais voltado à prestação de serviço – pelo menos em comparação a outras décadas do país. Nada menos que 49% da população do país encontra-se na faixa de renda atribuída, pelos padrões brasileiros, à classe média. Outros 29% estão em uma faixa intermediária entre a classe média e o topo da pirâmide social. Comparados os números de crescimento dos evangélicos e a passagem e estabilidade de brasileiros da classe E para um nível de classe C, assim como o número de brasileiros nos níveis de classe B, os evangélicos passam a ter representação significativa entre aqueles que tiveram mobilidade social – acesso a emprego, educação, renda, bens de consumo.

Desde a época do império espanhol, que levou o catolicismo como ideologia de Estado à Europa e à América, todos aqueles que estiveram do lado das reformas propostas por Lutero e Calvino foram perseguidos e colocados no patamar de incultos, desesclarecidos, desconhecedores. Aquela foi uma época de atrocidades e perseguições sem iguais na História da humanidade, forjadas pela Inquisição, e atingindo religiões, pessoas comuns, pensadores, artistas, cientistas. Desde lá, como qualquer ideologia de Estado, o catolicismo tratou de considerar qualquer outra religião que não professasse seus dogmas como produto de mentes e pessoas sem eira nem beira, desprovidas de conhecimento, vivendo no obscurantismo, nas trevas.

Até hoje, representantes da igreja Católica vêm a público para reafirmar que aqueles que não seguem seus dogmas assim são porque são desesclarecidos, sem cultura, a viver no obscurantismo – mesmo que estas pessoas sejam leitoras diárias da Bíblia, costumem frequentar escolas bíblicas, aceitem as palavras de Jesus como as palavras de Deus e, em suas igrejas, por força de entendimento que precisam estudar o Novo Testamento, o número de analfabetos praticamente inexiste. O mais recente representante a trazer público esta cisma de preconceito e desdém com a liberdade de expressão e de fé trata-se do novo Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, Raymundo Damasceno Assis. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o bispo católico disse que a ascensão social de quase 30 milhões de pessoas nos últimos anos as tornou mais “críticas” e reduz o número de evangélicos.

Os números do Censo 2000 e 2010 do IBGE dizem o contrário do que afirma o bispo católico. O número de brasileiros em mobilidade e ascensão social é significativamente aproximado do número de evangélicos no país. O crescimento de evangélicos ocorre em todas as classes sociais, em todos os níveis de escolaridade. Dizer que os mais pobres, por terem acesso a bens de consumo, serviços públicos, educação e emprego, estão se tornando mais críticos, e isso representaria uma opção de retorno da condição de evangélico a qualquer outra – o número de brasileiros sem religião também cresce – não está fundamentado nem nos números sociais, muito menos no que há para ver de realidade na sociedade. As dificuldades do Catolicismo talvez tenham a ver com seus dogmas, mistérios e maneira de existir com corporação. E está cada vez mais difícil existir como ideologia de Estado em um mundo de Estados que são definidos, por lei maior, como autônomo s em relação às religiões. Aqueles, hoje, pedem Estados religiosos, convocam guerras santas, atentados a quem pensa diferente e propagam fundamentalismos sob os quais impera o terror.

O atual estágio do sistema econômico mais largamente dominante define-se como sociedade do conhecimento e da informação. Um estágio em que ciência e tecnologia estão no topo das necessidades de produção e representam um novo modelo de acumulação de capital e formação de riquezas. Um estágio que exige educação complexa, mas, também, que seja urgente educação básica e profissional para todos. Ao mesmo tempo, é uma sociedade que surpreende a cada momento. Duas décadas atrás, os avanços tecnológicos geradores de bem-estar e satisfação não chegavam ao mesmo tempo a todas as classes sociais. Agora, cada vez mais, todos podem compartilhar dos avanços ao mesmo tempo. É um tempo, também, de grandes mudanças sociais, impactando na família, nas pessoas. As igrejas evangélicas têm a atenção voltada às famílias e às pessoas, tomando por base indicações resgatadas da Bíblia como uma tradição a seguir como ideal e princípio de vida em sociedade.

Daqui a dez anos, a seguir as previsões otimistas, os evangélicos serão mais de 100 milhões de pessoas no Brasil, representando metade das famílias e dos jovens brasileiros. Até lá, vamos ajudar o Brasil a cumprir suas metas de chegar a uma população em torno de 70% baseada na classe média e com melhores padrões de renda. Até lá, vamos ajudar o país a tirar todos os brasileiros da miséria econômico-social e da miséria de não saber ler e escrever. Até lá, o Brasil precisa ampliar suas bases científicas e tecnológicas, incorporar muitas delas às expectativas sociais e ao cotidiano dos brasileiros. No percurso, seguiremos como sociedade aberta à liberdade de expressão, de crítica e de fé, aberta às conquistas sociais, aos avanços científicos e tecnológicos. Graças a Deus, não vivemos mais, a não ser na imaginação de alguns, na época dos reis católicos.


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