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Algomais
• J
ulho
/2015
ele fundou há 10 anos.  O trabalho
de Pedro inspirou a formação de ou-
tros da terceira idade. Em Serra Ta-
lhada,  por exemplo, considerada a
Capital do Xaxado,  vai lançar o seu
grupo neste  semestre.
 Pedro Cândido viaja muito com
elas para apresentações nas cidades
próximas. A agenda é cheia, uma
média de cinco por mês e nenhuma
reclama.  As "bichinhas", assim Pedro
as trata carinhosamente, não dão tra-
balho nesse vaivém todo. Elas gostam
e ficam animadas. Devido à idade do
grupo, o xaxado verdadeiro foi adap-
tado a um novo ritmo com passos
mais leves.
 O figurino  é uma criação de  Ire-
ne  Cavalcanti,  71 anos, estilista e
costureira.  Petronila Silva, 67 anos, é
a única que ainda trabalha. É bibliote-
cária. Comunicativa, gosta de dançar
desde menina, assim como as outras.
Socorro Costa, professora de artes,
confecciona bonecas de pano que são
mostradas emuma das danças. Fátima
Quirino compôs o hino de  
As Mulhe-
res  do Cangaço
e é missionária.
Cada uma tem uma história para
contar, mas o que importa mesmo é
a dança, o ritmo que elas adoram e se
apresentam e até cantam com uma ale-
gria contagiante, ao somdamúsica:
Bate
compéXaxado/Bate compé rachado....
VIGOR.
"QUANDO EU DANÇO, VIVO UM
MOMENTO MÁGICO", CONFESSA ELZA, DE 84
ANOS, A MAIS ANIMADA DA TURMA
ORIGEM DO RITMO.
A "paternida-
de" dessa dança é controvertida.
Uma corrente afirma ter o xaxado
raízes indígenas, por ser dançado
em fila indiana ou em roda com for-
tes batidas no pés. Outros folcloris-
tas dizem tratar-se de uma variante,
de uma onomatopeia do parraxaxá, o
grito de guerra dos cangaceiros na
luta com a polícia, ou ainda, pelo  ba-
rulho das sandálias arrastando no solo
durante o "xaxar" do feijão. Trata-se
de um ritual antigo dos agricultores
em separar a bagem  (vagem) do fei-
jão batendo nelas  no chão e soltando
os grãos causando o som xa-xa-xa.
Controvérsias à parte, a verdade
é que foram os cangaceiros da Região
do Pajeú, onde se situa Serra Talhada,
a partir dos anos 20, que adotaram
essa dança como sua, principalmen-
te  Lampião que deu fama e visibilida-
de ao xaxado. Em fila indiana e baten-
do com o rifle no chão, sem música, a
arma dava o ritmo. O líder vinha na
frente puxando versos e os demais
respondiam em coro com insultos
aos inimigos, enaltecendo suas vitó-
rias ou ainda lamentando a morte dos
companheiros:
Eu não respeito polícia/
Soldado nunca foi gente/Espero morrer
velho/Dando carreira em tenente.
Com a chegada das mulheres,na
década de 30, o xaxado ganhou ale-
gria. Entrando na brincadeira,vieram
em seguida à zabumba, o pé-de-
-bode e as bebidas como a cachaça
e o conhaque. Levantando a poeira
nos sertões, cantavam animados:
vem Sabino/Mais Lampião;/Chapéu de
couro,/Fuzil na mão.
Os passos rápidos
e ásperos ganharam variações com os
nomes cavalo manco, ataque, batido
e tantos outros.
Hoje, o xaxado de ritmo binário,
virou folclore e até se aprende na es-
cola dançado aos pares, com pífano,
triângulo e sanfona. Essas escolas es-
tão espalhadas pelo Nordeste volta-
das para todas as idades. O espetáculo
tem uma bela plasticidade devido ao
ritmo, cores e batidas dos pés sin-
cronizados. Mas não é uma dança de
salão. Luiz Gonzaga foi o seu grande
divulgador.
O xaxado, dança de cabra macho,
é , sem dúvida, o mais belo legado que
os cangaceiros deixaram.
(W.C.)
LEGADO.
GRUPOS VESTEM-SE DE CANGACEIROS QUE FORAM OS CRIADORES DA DANÇA
CláudioSantos
DivulgaçãoCabrasdeLampião
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